Improviso futurista...
Ibéria
nove de dezembro de dois mil e noventa e dois
faço hoje anos
cento e quarenta
tenho dezasseis carcinomas
dois desfibriladores internos
um pulmão e dois olhos artificiais
que não vêem por mim
e já perdi a conta às próteses e ortóteses
ontem
pela décima terceira vez
nos últimos trinta anos
pedi ao governador regional de saúde
autorização para morrer
pedido automaticamente indeferido
ao abrigo do artigo décimo sexto número dois
da Directiva de Sobrevivência Europeia
o cansaço não é motivo atendível
um amigo sugere-me em alternativa
que cancele electronicamente todos os seguros de saúde
ou tente sair do hospital pela janela
nem sequer lhe ocorreu
que já não tenho pernas.
Ademar
12.05.2008