Improviso simplesmente dominical...
Já houve um tempo
em que os domingos não tropeçavam assim nesta melancolia
pensados agora
como que espreitavam uma espécie de felicidade adolescente
que nenhum futuro ensombrava
nesse tempo
todos os mortos comiam ainda à mesa
e nem os meus filhos ou a tua sobrinha tinham nascido
eram domingos tristes
muito mais tristes do que consigo agora imaginá-los
de uma tristeza que não cabe quase nas palavras
tu não pensavas ninguém
colavas ainda o destino a uma metade
que julgavas pertencer-te
e não tinhas montanhas nem abismos nesse lugar recôndito
que nenhuma esperança habita
eu
não tinha ainda descoberto a sombra desse plátano debaixo do qual fui morrendo
deixa-me abraçar-te aqui mesmo
antes que a terra nos falte
lembras-te por certo de outros domingos
e do primeiro de todos quando vieste
a mesa estava posta como sempre a viste
e ninguém fugiu
havia um cheiro de toalhas antigas
do baú da minha mãe
e tu nada perguntaste
também nesse tempo os domingos voavam
ainda que fosse só por mim
eu já era velho
e apenas escrevia metáforas
para distrair a verdade do tempo
agora arrumo as cadeiras talvez fora do lugar que já foi delas
e deixo sempre a cabeceira para alguém que nunca parte
não importa que chova
tenho a certeza de que a infância ainda será possível
num domingo assim.
Ademar
02.12.2008