
Na edição de 1 de Agosto de 1934, a revista Ilustração dedicava três páginas à "actualidade" dos "Exames" (72 anos depois, os exames, em Portugal, continuam a fazer a "actualidade"). As fotografias que acompanham o texto (não assinado) são deliciosas. Não menos, as respectivas legendas. Repare-se na fotografia que reproduzo. A legenda (dicotómica) reza o seguinte:
"INSTRUÇÃO PRIMÁRIA, 2º GRAU - Um acto sério que abre ao pequeno estudante as portas do liceu...ou da vida prática..."
Ao contrário do que, por vezes, a ignorância enfatuada pretende fazer crer, a questão dos exames nunca foi pacífica. Ainda não havia "ciências da educação" e "eduquês" e já se discutiam, acaloradamente, as vantagens e as desvantagens dos exames.
Note-se, por exemplo, o que o redactor não identificado da Ilustração escrevia, sobre o assunto, em 1934:
"A questão dos exames reveste aspectos complexos de psicologia e pedagogia. Numerosos são os argumentos invocados para demonstrar as vantagens ou os inconvenientes dessas provas em que os examinadores devem apreciar, no decurso de um interrogatório, os conhecimentos adquiridos pelo aluno.
Para muitos, os inconvenientes sobrelevam as vantagens. Há que atender, acima de tudo, ao factor psicológico, sistematicamente desprezado nos exames. Na realidade, um cérebro bem organizado e dotado de faculdades de assimilação pode ser servido por nervos impressionáveis que o atraiçoem. É facto averiguado que excelentes estudantes fazem no exame medíocre figura, pela simples razão de se perturbarem com o ambiente excepcional que à sua volta se estabelece.
Há ainda a circunstância de o lapso de memória ou de conhecimentos que justifica a reprovação nada representar, muitas vezes, na formação mental do aluno. Mas, neste ponto, a questão torna-se mais complexa ainda, porque contende com os sistemas de educação correntes. Em vez de preparar os espíritos para as múltiplas exigências da vida, o programa de estudos determina uma série de conhecimentos a fixar. Desenvolve-se deste modo a memória em detrimento da inteligência. Ora é princípio axiomático em psicologia que as inteligências mais maleáveis possuem uma maior capacidade de assimilação, mas que o seu poder de fixação varia na razão inversa dessa capacidade. Assim, um espírito dotado de restrito poder de compreensão fixará com mais dificuldade os conhecimentos, mas retê-los-á por mais tempo que outro mais favorecido. Num exame, esta circunstância não pode ser também atendida. Como regra geral, o examinador tem de se limitar a verificar os conhecimentos arquivados na memória, sem poder investigar a preparação mental do aluno.
Estas razões bastam para demonstrar que a instituição dos exames não está acima das críticas e que a sua reforma é um facto a encarar num futuro mais ou menos distante."
Quem lê e ouve, hoje, os partidários dos exames poderá pensar que está neles (entenda-se: nos exames) a salvação dos males do sistema de ensino, em Portugal. Desconhecem o a-b-c da história da educação: nunca os exames foram garantes da qualidade do ensino e da aprendizagem. Em 1966, Rui Grácio "arriscou" uma interessante analogia entre os exames e o atletismo: "Comprar cronómetros de alto quilate, mantê-los afinados, e preparar cronometristas competentes, não alteraria a qualidade do nosso atletismo, apenas permitiria verificar com maior precisão a mediocridade do seu nível". (cf. António Nóvoa, "E vid ente mente - Histórias da Educação", p.53)
Ontem, na Assembleia da República, discutiu-se acaloradamente a questão dos exames do secundário. Estranhamente, nenhum deputado, remontando à origem de todas as trapalhadas, questionou a própria existência dos exames. A ignorância, o oportunismo e a demagogia continuam a pautar o discurso político em Portugal.
Pobres deputados, pobre ministra, pobre país e pobre "educação"...
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