O Portugal desprezível (em dois andamentos)...
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Cada vez compreendo melhor as pessoas que se refugiam nos livros e evitam o contágio da mesquinhez humana. A espécie a que pertencemos, de facto, não se recomenda. O egoísmo dos pequenos interesses comanda tudo. Queremos lá saber dos outros, dos direitos e das legítimas expectativas dos outros...O que importa é o proveito ou a vantagem que, individualmente, podemos retirar de cada circunstância. Somos sempre o centro do universo e o universo tem, por força, de girar à nossa volta, o Estado tem de nos dar o emprego ou o benefício a que nos achamos com direito. Quando o amiguismo não funciona, funciona a vingança da calúnia. Aqueles que, neste país, aspiram a um suplemento, mínimo que seja, de racionalidade, de ética e de decência têm, permanentemente, a ladrar-lhes aos calcanhares os que julgam que a medida do lixo é a medida de tudo e de todos. Devíamos viver na lama ou no pântano, para que ninguém se pudesse elevar acima do horizone da chafurdice. Seríamos todos desprezíveis, mas iguais na imundície. Ninguém se queixaria, ninguém reclamaria...
Mais insulto, menos insulto, mais canalhice, menos canalhice... já não tenho idade para dar o peditório da sordidez. Eles e elas, por mais que teimem, hão-de desistir ou cansar...
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A sociedade, em Portugal, está dividida entre os "nossos" e os "outros". Os "nossos" são todos aqueles que temos o dever de favorecer: parentes, amigos, colegas, camaradas, companheiros de igreja ou de seita. As empresas públicas, a administração central, as câmaras municipais, até a banca estão a abarrotar dos "nossos". São tantos que pouco ou nada sobra para os "outros", os eternos deserdados da "cunha" e do compadrio. Faça-se uma auditoria no país e tire-se o retrato. A situação seria, certamente, ainda mais escandalosa e deprimente do que a imaginamos...
Era assim antes de Abril de 1974...e continua a ser.
Outubro.2005
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